… era uma criança de 6 anos !!!!
Era apenas um menino de 6 anos de idade. Horas antes, tinha marcado o primeiro gol na escolinha de futebol e dedicado ao pai. E poucos dias atrás, na escola, fizera um desenho com as frases “De João para mamãe” e “Eu gosto dela”. Na noite de quarta-feira, o pequeno João Hélio Fernandes — o filho de Elson Lopes Vieites e Rosa Cristina Fernandes Vieites — foi brutalmente assassinado. Preso pelo cinto de segurança do banco traseiro do Corsa Sedan da família, foi arrastado pelo asfalto de 13 ruas e uma praça de quatro bairros da Zona Norte, num percurso de 7 km feito em 10 minutos.
Ao volante e no banco do carona, dois ladrões ensandecidos que, de propósito, faziam ziguezague com o veículo, roubado minutos antes, na tentativa de se livrar de João, o que não ocorreu.
Ao longo do caminho, pelos bairros de Oswaldo Cruz, Madureira, Campinho e Cascadura, havia dezenas de cidadãos, totalmente desesperados com o que viam. Homens de bem gritavam para que o carro parasse; mulheres e crianças choravam, e algumas chegaram a desmaiar. Uma das testemunhas — homem de moto — entrou em desespero e seguiu o Corsa por oito ruas.
DESESPERO TOTAL
Durante o percurso, buzinava desesperadamente e piscava farol, alertando o motorista de que criança era arrastada. Em vão. O motociclista foi obrigado a desistir no Largo de Campinho, quando um bandido pôs o corpo para fora da janela e apontou arma para trás.
A tragédia teve início em Oswaldo Cruz, na esquina da Rua João Vicente com a Avenida Henrique de Melo. Lá, os dois bandidos, a pé, renderam a mãe de João, que estava ao volante. Ela e a filha de 13 anos, Aline, conseguiram saltar. Quando Rosa foi ajudar seu filho a sair do carro, os bandidos aceleraram. O garoto tentou escapar, mas ficou preso. O motociclista estava a 200 metros dali quando viu o menino sendo arrastado.
LADRÃO CHUTOU CORPO
Na Rua Caiari, Cascadura, ponto final da tragédia, os bandidos pararam e trancaram o carro, antes de fugir. Um deles chegou a empurrar com o pé, para fora do veículo, os restos mortais de João, dilacerados. À tarde, a PM prendeu, em Madureira, dois acusados da barbárie.
No enterro da criança, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, e o comandante da Polícia Militar, Ubiratan Angelo, prestaram solidariedade à família. O secretário classificou o crime como banalização da violência e disse estar revoltado. “Sou pai e posso imaginar a dimensão da dor desta família. Estou revoltado com esta atitude animalesca”, afirmou, lembrando que está fechando alguns batalhões para aumentar o policiamento nas ruas.
Segundo o coronel Ubiratan, o crime foi tão bárbaro, que o sargento que atendeu a ocorrência ficou completamente mudo ao chegar à delegacia para registrar. No Instituto Médico-Legal, peritos que viram o corpo também se emocionaram.
DESESPERO
João foi enterrado na tarde de ontem, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Em silêncio, os pais acompanharam o cortejo. Aline, porém, desabou: “Eu quero meu bebê de volta! Vou abrir aquele caixão e tirá-lo de lá! Eu quero meu irmão de volta! Eu quero ouvir a vozinha dele de novo! Eu quero ir com ele! Eu vou ficar com ele até o fim porque ele está vivo! Eu vou matar aqueles dois! Levaram o meu irmão!”, repetia, pedindo desculpas por não ter conseguido tirá-lo do carro.
GAROTO FANÁTICO POR FUTEBOL
Na volta às aulas, desenho para a mamãe. Na escolinha de futebol, o primeiro gol foi dedicado ao papai. Essas são algumas das boas lembranças do alegre João, que completaria 7 anos em 18 de março. Apaixonado pelo Botafogo, adorava jogar bola, tanto quanto gostava de cantar músicas em inglês, nas aulas da Pré-Escola Crianças & Cia, na Abolição.
(Pagina do Jornal O Dia)